Terapia

Eu costumava ter medo de envelhecer. Medo da entropia crescente que envolve todas as coisas, da matéria que se degrada; era um medo físico. O que eu não via é que temer o inevitável é meio que uma batalha perdida, um desperdício do medo — este alarme do mundo natural que nos avisa sobre o perigo que se aproxima e nos prepara para lutar ou correr. É mais proveitoso, então, temer aquilo que ainda se possa evitar. Por isso, hoje meus medos são outros.

Em primeiro lugar, tenho receio de testemunhar o endurecimento de minhas próprias convicções, a ponto de esquecer o fluxo de descobertas e novas evidências que brotam todos os dias da mente humana, em todas as áreas do conhecimento, e que não têm pena, nem pedem licença a quem possam contrariar ou desagradar. Meu pavor é de que minhas certezas demoradamente construídas ao longo de muito tempo me façam cego e surdo e que esse dia passe em branco, que eu o ache natural.

Sinto horror ao pensar que um dia posso esquecer que a sociedade, a massa humana, é um ser em si mesmo, um organismo que em seu intricado mar de decisões e ideias — algumas inovadoras — não respeita uma mente que perdeu a capacidade de abraçar ou ao menos conviver com o que lhe é estranho, uma mente que parece ter parado em alguma época distante, sem nome e que lá ainda vive, com fatos e provas que hoje não são nem uma coisa nem outra, mas meras sombras de pensamentos que já caíram por terra. E que, de novo, tudo isto me soe perfeitamente aceitável.

Tenho medo de em algum momento da vida parar de questionar a mim mesmo e deixar que morra o instinto de procurar por novas perguntas, que talvez ainda não tenham respostas definidas e convenientes, mas que assim mesmo deve ser feitas. Aliás, temo a conveniência exagerada que pode crescer, como um tumor, até nas mente mais ativas. O que eu faço se um dia perceber que estou negando o novo apenas por ser o que é, novo? E se eu notar que estou com raiva de uma opinião apenas por ela não ser o que me acostumei e me treinei (ou fui treinado) para pensar? Poderá chegar o dia em que no fundo, bem no fundo, eu não perceba que argumentos contrários me aborrecem por que não são aquilo que eu gostaria de ouvir. Pior, vou voltar a cabeça para as vozes que ecoem aquilo que me é agradável e familiar. Vozes que não se importam com a verdade (já que ela é inconveniente) ou com os demais. Vozes que insistem em manter vivos passados feios, rostos duros, atos vergonhosos e estão nos lugares mais improváveis, como o salão forrado de azul da câmara de representantes eleitos ou até na televisão. E talvez chegue o dia fatídico em que estas vozes me chamem e eu não as recuse. Eu temo. Não quero me tornar uma soma de pensamentos e sentimentos unilaterais.

Bom, talvez haja um certo ponto na existência em que um ser humano de repente se canse de ter que repensar a si mesmo com frequência, um momento em que ele simplesmente escolha um lado para defender sem pensar. É possível, acho. Mas quem sabe seja outra coisa, um processo gradual, imperceptível, lento, que aos poucos vai minar minha plasticidade mental, assim como os anos roubam as capacidades do cérebro. Mais ainda além disso, e o que na minha opinião faz mais sentido: Pode ser que essa desistência intelectual seja uma decisão, tomada inconscientemente e, portanto, impensada. E nesta conclusão já está a solução.

No futuro, quando e se eu surpreender a mim mesmo dando ouvidos aos absurdos confortáveis proferidos por aqueles que não acompanharam a marcha do tempo, espero que eu tenha coragem de voltar a (me) questionar. A conclusão só pode ser de que o remédio e terapia para o medo de envelhecer e me acomodar, sendo levado a pensar que tenho todas as respostas, é apenas manter viva a coragem de duvidar.


Na capa deste texto: Ilustração por Josan Gonzalez. Para mais informações sobre o artista e suas ilustrações distópicas, clique aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s