Alioshenka

Este texto é uma republicação, revisada e atualizada. Original publicado neste site há 4 anos.


“Seja gentil, pois todos aqueles que encontras estão lutando uma difícil batalha.”


Alexei Ivanovich Prokofiév passava por uma sensação que desconhecia em absoluto. Estava em solo inimigo, representando um dos países aliados vitoriosos, e carregava, desde que chegou, acompanhado de centenas de soldados, um sentimento terrível, uma angústia indizível. O que lhe aterrorizou e lhe causou tal sofrimento, foi, desde o início, a visão daquela cidade destruída e arrasada; seus monumentos, outrora orgulhosos, agora jaziam, perfurados, alquebrados e estilhaçados. Na pátria mãe, na grande Rússia, também havia ruínas, destroços; mas a integridade da bela e amada capital, Moscou, havia sido mais ou menos mantida (por bem pouco, é fato, mas havia); seu Kremlin, os demais antigos prédios e os baluartes estavam soberbos, depois de uma guerra mundial. Mas aqui não. Eis um povo, ainda que inimigo, que havia visto sua capital ser ofendida e invadida, ser morta, e viu muitos dos seus serem mortos com ela. Apesar de cidades poderem ser reconstruídas, ao passo que pessoas não, Alexei Ivanovich sentia-se pior pela visão da Berlim destruída, do que pelas baixas civis. Afinal, era uma guerra. Este era o povo inimigo, o povo nazista, os seguidores de Hitler. Para se ganhar a guerra era preciso matar o povo, os soldados, enfim, os alemães. Tudo isso corria pela cabeça de Alexei Ivanovich, que concordava consigo mesmo que tinha todos os motivos para odiar o povo alemão, e para agir sem misericórdia nesta cidade, que seu país agora dominava. Ainda assim, não podia conter aquela sensação estranha, quase errada, mas que lhe tomava por completo.

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“A bandeira soviética tremulava em seu cimo (…)”

O palácio do Reichstag¹ era a própria imagem do orgulho ferido, mas que teme em ficar de pé. A bandeira soviética tremulava no seu cimo, era uma afronta, mas ainda mais uma demonstração de superioridade. Prokofiév tinha uma dupla sensação ao pensar nisso tudo: rejubilava-se pela vitória do seu exército e de sua terra, mas conseguia imaginar a humilhação imposta àquela cidade e àquela gente berlinense, que sobrevivia em meio a destruição, diminuída e derrotada. Se tivesse coragem e nervos para pensar a fundo nestas questões, Alexei Ivanovich com certeza perceberia a fina sintonia que sua mente fazia entre suas memórias antigas e seu presente. Lembrava-se, com efeito, de quando era apenas um garoto e ia passear com seu pai pela grande Leningrado, quando passava pelo Neva² e o via cumprimentar conhecidos. O velho Iván ria-se de seu pequeno Alioshenka, que olhava para os prédios como que temeroso e ao mesmo tempo com um profundo respeito. Pois na memória esquecida do agora soldado Alexei, havia ainda o profundo respeito por esta entidade que era a cidade, por suas construções e seus significados. Mais ainda: Berlim era uma capital. Por uma dessas coincidências, ele havia nascido em 1918, ano em que Leningrado havia deixado de ser a capital russa e passado esta honra para a grande Moscou. Alexei amava as duas cidades. Ele sabia que ela própria, Leningrado, estava agora em ruínas também. De certeza, seus amigos e conhecidos de lá estavam mortos, seja em campos de batalha ou defendendo a cidade. Talvez nem mesmo seus pais tivessem podido fugir para o  leste e escapar do cerco nazista, ele não sabia. Quantos berlinenses teriam agora tanto em comum com ele? Quantos estariam tristes, doentes e feridos, como seus conterrâneos? Os alemães eram culpados pela sua dor, e ele, em certa medida, pela dor dos alemães.

Outros soldados soviéticos faziam festa e tocavam acordeon e dançavam nos arredores da cidade. Comemoravam o fim da guerra e a vitória. Mas Alexei permanecia com aquela estranha sensação que não podia ultrapassar e da qual não tinha como fugir; misturavam-se, sem que ele notasse, velhos sentimentos de infância e a confusão causada pela guerra. Tudo aquilo estava fora do escopo de um mero soldado, uma peça da engrenagem do Exército Vermelho. Se contasse o que sentia a alguém, poderia não ser compreendido, talvez até acusado de algo, de traição, de ser demasiado tocado pela situação, de covardia, o que seja. Alexei Ivanovich tinha medo. E assim permanecia durante aquelas horas, que o torturavam, o confundiam. Suspeitava mesmo que aquilo que lhe aviltava e lhe causava tanto sofrimento na alma tinha um nome… Queria não pensar nisso. Mas, sentado nos restos de um velho prédio, perto de onde seus companheiros faziam festa, Alexei Ivanovich Prokofiév encarava o terrível fato, a horrível ação de deixar-se raciocinar e de, enfim, lidar diretamente com seu inimigo interno. Admitiu, finalmente, o nome deste mal que lhe afligia e ficou perplexo:

Compaixão.


Notas:

 Alioshenka é o diminutivo em russo do nome Alexei.

 1 — Palácio do Reichstag: Sede do parlamento federal da Alemanha (Bundestag).

2 — Rio Neva, que corta a cidade de São Petersburgo (outrora chamada Leningrado).

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