A História de Nellie Bly | Parte II

Para ler a primeira parte, clique aqui.


 

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Primeira edição de A Volta ao Mundo em 80 Dias, publicado em 30 de janeiro de 1873

Em 1873 o escritor francês Jules Verne publicou o clássico de aventura A Volta Ao Mundo em Oitenta Dias, onde o metódico inglês Phileas Fogg e seu fiel empregado tentam realizar a façanha que dá nome ao livro por conta de uma aposta no valor de 20.000 libras. É uma ótima história da era Vitoriana, que marca uma época em que aviões não existiam e estar do outro lado do mundo em menos do que semanas era no mínimo um sonho distante; podemos dizer então que hoje, com mais de cento e quarenta anos entre nós e Phileas Fogg, o senso de desafio de dar a volta ao mundo em menos de três meses já não é mais exatamente o mesmo. Ao pesquisar no Google, sou informado de que um vôo do Rio de Janeiro com destino a Sydney, uma viagem (em linha reta) de mais de 13 mil quilômetros, leva pouco mais de 21 horas. Ainda assim com o equipamento correto, é possível hoje cruzar o planeta em muitos menos tempo: Os tripulantes da Estação Espacial Internacional completam uma órbita de nosso planeta em aproximadamente 90 minutos por exemplo — não exatamente uma viagem, mas ainda assim impressionante.

Os tempos de aviões a jato e órbitas entretanto ainda estava muito longe de Nellie Bly. Em 1888, após todo tipo de feitos jornalísticos, incluindo se infiltrar em um asilo para loucos, Bly teria uma nova idéia. Curiosamente, em um domingo de outono daquele ano, o que a jornalista mais famosa de Nova Iorque não tinha eram idéias. Nellie geralmente entregava suas propostas para artigos ao seu editor do The New York World ainda cedo na segunda-feira. Às três horas da manhã e sem conseguir escrever nada Nellie, alimentada por seu estresse e cansaço, desejou mentalmente que estivesse do outro lado do mundo. “E por que não?” pensou. Poderia ser uma ótima estratégia para aumentar as vendas e causar publicidade para o jornal. No livro que lançaria mais tarde, Nellie descreveu:

É fácil ver como um pensamento levou a outro. A idéia de uma viagem ao redor do mundo me agradava e adicionei: “Se eu pudesse fazer tão rápido quanto Phileas Fogg, eu devo ir.”

Logo Nellie reuniu-se com o editor John Cockerill e propôs sua idéia de tentar quebrar o recorde de oitenta dias de Phileas Fogg. Para sua surpresa, foi informada de que já haviam pensado em um plano parecido, mas queriam enviar um homem na jornada. Ambos foram então apresentar a proposta de Bly ao gerente administrativo, com Cockerill garantindo que a apoiaria. A resposta dada pelo gerente, George Turner, inicialmente não foi o que Nellie gostaria:

“É impossível para você fazer isso,” foi o terrível veredito. “Em primeiro lugar você é uma mulher e precisaria de um protetor, e mesmo que fosse possível que viajasse sozinha, precisaria carregar tantas bagagens que a deteria de fazer conexões rapidamente. Além disso você não fala nada além de inglês, então é inútil conversar sobre isto; ninguém além de um homem pode fazê-lo.

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Nellie preparada para viajar, em foto promocional do The New York World

Como era seu costume, Nellie não aceitou a negativa. “Mandem o homem” disse, “e inicio no mesmo dia para outro jornal e chego primeiro”. Depois de algum tempo debatendo e fazendo considerações, Nellie saiu da reunião com a promessa de que se o New York World mandasse alguém em uma viagem ao redor do mundo, seria ela.

Por conta de outros projetos importantes, a idéia de Nellie foi posta de lado até que em uma noite, um ano mais tarde, foi chamada às pressas ao escritório de Turner. Ao lado de seu editor, que também havia sido chamado, o gerente perguntou se Nellie poderia iniciar sua viagem ao redor do mundo no dia seguinte. “Posso começar neste minuto”, respondeu. Assim, depois de preparar um vestido novo e guardar uma pequena quantidade de roupas e artigos pessoais em uma bagagem de mão, Nellie Bly embarcou para a Inglaterra no vapor SS Augusta Victoria, às 9:40  da manhã do dia 14 de novembro de 1889.

O jornal novaiorquino Cosmopolitan mandou sua própria repórter, Elizabeth Bisbane, viajando no sentido oposto, para vencer tanto Phileas Fogg quanto Nellie Bly. O New York World lançou um concurso de adivinhação para manter o interesse no evento, premiando com uma viagem para a Europa com todas as despesas pagas aquele que adivinhasse com maior precisão o dia e horário da volta de Nellie.

Em menos de uma semana Nellie chegou em Londres, onde o correspondente do The World, Tracy Greaves, a avisou de que o criador de Phileas Fogg, Jules Verne, queria conhecê-la. No que se mostrou sua única saída para não estragar o itinerário e aceitar o convite que a deixou bastante feliz, Bly viajou sem descansar durante dois dias até Amiens, na França. Ao chegar na estação, a esperavam Verne, sua esposa e R. H. Sherard, jornalista de Paris.

Madame Verne, eu julgo, não tinha mais do que cinco pés e duas [polegadas] de altura [1.57m]; Monsieur Verne mais ou menos cinco pés e cinco [1.65m]. Monsieur Verne falava de maneira rápida e curta, e o Sr. Sherard em uma atraente, preguiçosa voz traduzia o que era dito, para meu benefício.

Nellie narrou outras impressões detalhadas do casal, e sobre o que conversaram conta:

“Como teve a idéia para seu romance”, ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias'”, eu perguntei.

“Tive através de um jornal”, foi sua resposta. “Peguei uma cópia de Le Siécle uma manhã, e encontrei uma discussão e alguns cálculos mostrando que a jornada ao redor do mundo poderia ser feita em oitenta dias. A idéia me agradou, e enquanto pensava sobre o assunto notei que os cálculos que eles tinham não levavam em conta as diferenças entre os meridianos e pensei, que desfecho algo assim seria para um romance, então trabalhei para escrever um [Nota: No desfecho livro, Fogg pensa ter chego com um dia de atraso tendo portanto perdido sua aposta, mas se esqueceu que por ter viajado para o leste, estava um dia a frente do que imaginava.]. Se não fosse pelo desfecho acho que nunca teria escrito o livro.

Após conhecer o famoso escritor, Nellie ainda percorreria mais de 40 mil quilômetros em sua viagem e apesar de parecido, seu trajeto não era igual o do personagem de Verne pois não passava por Bombaim (hoje Mumbai), na Índia:

Monsieur Verne perguntou-me qual minha linha de viagem seria, e eu estava muito feliz por falar algo que ele poderia entender, então eu lhe disse:

“Minha linha de viagem é de Nova Iorque à Londres, então Calais [famoso porto na França], Brindisi [porto na Itália], Porto Said [Egito], Ismailia, Suez [referindo-se ao canal de Suez e a cidade egípcia em sua margem leste], Aden [Jordânia], Colombo [capital do Sri Lanka], Penang [Malásia], Singapura, Hong Kong, Yokohama [Japão], São Francisco, Nova Iorque.

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A rota de Nellie Bly, incluindo sua parada em Amiens

Nellie realizou sua travessia usando navios a vapor e ferrovias, que às vezes causavam atrasos, especialmente na Ásia. Em suas paradas, encontrou tempo para visitar uma colônia de leprosos na China e comprou um macaco em Singapura. A jornalista teve problemas em sua travessia do pacífico quando o navio RMS Oceanic chegou em São Francisco com dois dias de atraso, no dia 21 de janeiro. Joseph Pullitzer, dono do New York World, alugou então um trem privado para levar Nellie até o ponto de onde havia partido, em Hoboken, Nova Jérsei. A chegada foi às 3:51 da tarde do dia 25 de janeiro de 1890.

Nellie deu a volta ao mundo em 72 dias, 6 horas e 11 minutos — um recorde mundial até então, mas que seria quebrado poucos meses depois por George Francis Train, que completou a viagem ao redor do mundo em 67 dias. Elizabeth Bisland do jornal Cosmopolitan chegou quatro dias mais tarde. Quanto ao The New York World, a publicidade trazida foi muito bem-vinda, chegando a produzir um jogo de tabuleiro intitulado “Ao Redor do Mundo com Nellie Bly”.

Com 25 anos, Nellie era a jornalista mais famosa dos Estados Unidos e provavelmente do mundo.


Prólogo:

Aquele que talvez seja o momento mais curioso e, dada sua personalidade e história, também mais contraditório da vida de Nellie Bly, ocorreu cinco anos depois de sua famosa viagem. Em 1895, Nellie casou-se com o industrial Robert Seaman. Bly tinha 31 anos e Seaman 73. Nellie se aposentou do jornalismo e virou presidente da companhia do marido, Iron Clad Manufacturing Co., que fabricava recipientes de metal como leiteiras e chaleiras. Nove anos mais tarde, Seaman morreu e durante algum tempo Nellie foi uma das mulheres industrialistas mais influentes dos Estados Unidos. Bly também registrou duas patentes. Por conta de fraudes e apropriações indevidas cometidas por outros funcionários, a Iron Clad Manufacturing veio à falência. De volta ao jornalismo, Nellie escreveu reportagens sobre o fronte oriental na Primeira Guerra Mundial e cobriu a parada sufragista de 1913.

Nellie Bly morreu em 27 de janeiro de 1922, aos 57 anos, de pneumonia.


Referências:

http://digital.library.upenn.edu/women/bly/world/world.html | Texto integral do livro A Volta ao Mundo em 72 Dias, por Nellie Bly (em inglês)

http://digitalcollections.nypl.org/items/510d47dd-b199-a3d9-e040-e00a18064a99 | Fotografia de Nellie, parte da coleção digital da Biblioteca Pública de Nova Iorque

https://nelliebly125.wordpress.com/still-making-news-2/pittsburgh-the-pittsburgh-post-gazette/ | Artigo sobre os 125 anos da viagem de Nellie ao redor do mundo (em inglês)

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