A História de Nellie Bly | Parte I

Em 1885, o jornal The Pittsburgh Dispatch, da cidade de Pittsburgh, no estado americano da Pensilvânia, publicou a carta de um “Pai Ansioso” que perguntava o que deveria fazer com suas cinco filhas solteiras, que tinham entre 18 e 26 anos. Acompanhando a carta havia uma resposta do colunista Erasmus Wilson, intitulada “What Are Girls Good For” (“Para o que as Garotas Servem”, em tradução livre). Por esta descrição, não será surpresa dizer que o artigo era agressivamente sexista e Wilson condenava a mulher que desejava estudar e trabalhar (“uma monstruosidade” dizia), insistindo que o sexo feminino não deveria ficar muito longe de casa. Em tom de brincadeira, mas de um terrível mal gosto, Wilson sugere resolver o problema dizendo que “na China eles matam bebês meninas. Quem sabe, mas este país pode ter que recorrer-se disto alguma hora”.

O artigo provocou um número de respostas furiosas de mulheres da comunidade local. Dentre elas havia uma carta anônima assinada por uma “Garota Orfã Solitária”. O tom da carta e a maneira como tinha sido escrita impressionaram George Madden, editor do Pittsburgh Dispatch, que publicou um anúncio convidando a orfã solitária a fazer uma visita ao jornal. No dia seguinte, Madden foi visitado por uma menina de vinte anos, visivelmente nervosa, chamada Elizabeth Cochran. Madden pediu a Elizabeth que escrevesse um artigo “sobre a área das mulheres”.

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Exemplar do The Pittsburgh Dispatch de primeiro de janeiro, 1889

O artigo, chamado The Girl Puzzle (algo como O Enigma das Meninas), foi publicado. Seu subtítulo era “Algumas Sugestões Sobre o que Fazer com as Filhas de Eva” e começa da seguinte maneira:

O que devemos fazer com nossas meninas?

Não nossas Madames Neilson; nem nossas Mary Andersons; não nossas Bessie Brambles ou Maggie Mitchels; não nossas belezas ou nossas herdeiras; nenhuma destas, mas aquelas sem talento, sem beleza, sem dinheiro.

O que devemos fazer com elas?

O pai ansioso ainda quer saber o que fazer com suas cinco filhas. Realmente ele poderá indagar-se e perguntar-se. Meninas, desde a existência de Eva, têm sido fonte de preocupação, tanto para si quanto para seus pais, sobre o que será feito delas. Elas não poderão, ou não irão, conforme seja o caso, todas casarem-se. Poucas, muito poucas, possuem a poderosa caneta de Jane Grey Swisshelm, e mesmo escritoras, conferencistas, doutoras, pregadoras e editoras devem ter o dinheiro para qualificarem-se como tais. O que deve ser feito daquelas que são pobres?

4NellieBly-0125Elizabeth Jane Cochran nasceu em Cochran’s Mills, pequena cidade perto de Pittsburgh. Seu pai, o Juiz Michael Cochran, havia sido um homem rico, mas morreu quando Elizabeth tinha seis anos. Sua mãe, Mary Jane, lutou para manter a família. Mary Jane casou novamente mas foi forçada a passar por um complicado processo de divórcio por conta dos abusos do segundo marido. Mãe e filha se mudaram para Pittsburgh e ocupavam-se dos cuidados da casa, que haviam transformado em pensão. Elizabeth tentou estudar para se tornar professora, mas foi forçada a abandonar a educação por falta de fundos.

Em um texto que mesclava uma verdadeira resposta ao “Pai Ansioso” e ao colunista que havia escrito o artigo que lhe causou revolta, Elizabeth ainda continuou:

Se meninas fossem meninos rapidamente seria dito: os iniciem onde quiserem, eles podem, se ambiciosos, ganhar nome e fortuna. Quantos homens grandes e ricos podem ser apontados como tendo começado de baixo; mas onde estão as mulheres? Deixe-se que um jovem comece como mensageiro e ele irá trilhar seu caminho até o topo e tornar-se um dos firmes. Meninas são igualmente espertas, muito mais rápidas para aprender; por que, então, não podem fazer o mesmo?

Madden, mais uma vez impressionado, contratou Elizabeth, que passaria a escrever para o jornal sob o pseudônimo com o qual mais tarde ficaria mundialmente conhecida: Nellie Bly. Em uma época em que mulheres em jornais geralmente escreviam sobre jardinagem, moda ou colunas sociais, Nellie escrevia sobre os pobres e oprimidos; Nellie escreveu, baseada na experiência de sua própria mãe, sobre as desvantagens das mulheres em processos de divórcio; também escreveu, dentre outras coisas, sobre as condições das trabalhadoras de fábricas locais. Seus artigos fizeram sucesso mas passaram a incomodar os empresários de Pittsburgh, muitos ameaçando retirar suas propagandas e patrocínio das páginas do Pittsburgh Dispatch. Com a ameaça, Nellie recebeu pressão para passar a escrever artigos sobre assuntos menos graves e mais tradicionais dentre suas colegas jornalistas mas, não aceitando isto, foi para o México e serviu como correspondente, tendo suas crônicas de viagem publicadas no jornal entre 1886 e 1887. Entretanto, Nellie passou a dar notícias sobre a corrupção no país e a condição dos mais pobres, o que enfureceu oficiais do governo. Quando denunciou a detenção de um jornalista por criticar o governo do presidente Porfirio Diaz, Nellie foi forçada a deixar o México sob ameaças de prisão. Seus artigos da época seriam publicados em 1888 no livro Six Months in Mexico (Seis Meses no México).

Ainda em 1887, Nellie foi para Nova Iorque e após algum tempo procurando trabalho e já quase sem dinheiro, conseguiu ser empregada no jornal de Joseph Pullitzer (que hoje dá nome ao prêmio Pullitzer de jornalismo), o The New York World. Uma de suas primeiras tarefas foi a de denunciar as condições em um asilo para mulheres doentes mentais em Blackwell’s Island (hoje Roosevelt Island), uma ilha nos arredores de Manhattan. Com ajuda de maquiagem e roupas que lhe davam credibilidade — além de uma atuação convincente, Nellie conseguiu se passar por doente mental. Andando pelas ruas e se apresentando como Nellie Moreno, imigrante cubana, se hospedou em uma hospedaria para mulheres. Em pouco mais de um dia fingindo gritos de raiva e de comportamentos insanos, a menina havia convencido aqueles hospedados de que tinha problemas; foi levada pela polícia e foi parar na ala psiquiátrica do Hospital Bellevue, onde foi avaliada como insana e delirante. A notícia de uma jovem louca chegou a ser publicada por outros jornais e em pouco tempo Nellie estava a caminho de Blackwell’s Island.

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“NELLIE BLY MOSTROU O CAMINHO – O grande júri relata abusos em asilo em Blackwell’s Island” diz o título do artigo no The New York World, 3 de novembro de 1887

Nellie não seria a primeira a denunciar o que acontecia nos hospitais psiquiátricos da ilha. Outros autores haviam escrito sobre a situação, incluindo Charles Dickens em 1842, mas Nellie seria a primeira a se infiltrar sob disfarce para ver em pessoa. A menina bonita e geralmente sorridente de 23 anos viveu na sujeira, comendo alimentos estragados ou podres e passando por abusos físicos — a condição diária das pacientes reais — durante dez dias, até ser liberta por um agente do The New York World. Behind Asylum Bars (Atrás da Grades do Asilo) era o título do artigo publicado dois dias depois. Expondo o que viu e viveu, Nellie pergunta: “O que, exceto tortura, produziria insanidade mais rápido do que este tratamento?”

A coletânea de suas experiências em Blackwell’s Island foi publicada em 1887 sob o título Ten Days in a Mad House (Dez Dias em uma Casa de Loucos). A denúncia e exposição do que se passava nos asilos para doentes mentais causou grande sensação e alvoroço em Nova Iorque; uma investigação se seguiu, que eventualmente levaria a uma considerável melhora no tratamento dos pacientes. Outras campanhas similares levaram Bly a mais ações sob disfarce, atacando a prisão, lobistas corruptos envolvidos em casos de suborno e outras histórias. Nellie Bly era provavelmente a jornalista mais famosa de sua época.

Entretanto, seu ato mais famoso aconteceria só em 1889: Uma façanha apenas antes tentada na ficção.

Saiba mais na segunda parte da história de Nellie Bly, já publicada.


Referências:

http://www.nellieblyonline.com/bio | Site dedicado a Nellie Bly, com artigos e biografia (em inglês)

http://mentalfloss.com/article/29734/ten-days-madhouse-woman-who-got-herself-committed | Artigo sobre os dez dias de Nellie em Blackwell’s Island (em inglês)

http://www.britannica.com/biography/Nellie-Bly | Entrada sobre Nellie Bly na Encyclopædia Britannica (em inglês)

http://dlib.nyu.edu/undercover/behind-asylum-bars-reaction-nellie-bly-led-way-unsigned-new-york-world | Artigo do jornal The New York World preservado pela New York University, sobre a investigação iniciada sobre os abusos em hospitais psiquiátricos da cidade (em inglês)

http://chroniclingamerica.loc.gov/lccn/sn84024546/1889-01-01/ed-1/seq-1/ | Página do jornal The Pittsburgh Dispatch; arquivos de jornais preservados pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, parte do projeto Chronicling America. 

https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/107052 | “O auge de Nellie Bly: uma jornalista estadunidense no final do século XIX” — Dissertação de mestrado de Natália Costa Cimó Queiroz e provavelmente a única fonte sobre Nellie Bly em português. Trabalho disponível em pdf pelo Repositório Institucional da UFSC. (em português)

Nota sobre as referências: Sou tentado a pedir desculpas aos que se interessarem em saber mais sobre uma figura tão interessante quanto Nellie Bly, mas não falam inglês. Infelizmente, seria impossível escrever esta série de artigos me baseando apenas em fontes em nossa língua, simplesmente por que tais fontes não existem. Todas as fontes relativamente confiáveis que fazem este texto e sua segunda parte possíveis estão em inglês. A própria autora da dissertação de mestrado acima confessa que seu trabalho é provavelmente o único em português. Em momentos assim sentimos a posição de nosso país e a importância de saber outra língua, caso queiramos conhecer o que não chega até nós.
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