Apologia

Alguns anos atrás eu era declaradamente contra “essa juventude de hoje”, ou o que quer que seja que meu eu daquela época achava ser esse grupo. Na posse de um site recém-criado e da vontade de escrever, cheguei a publicar um certo número de textos encharcados com o saudosismo não merecido daqueles que lamentam épocas não vividas; infelizmente nem tudo que escrevi foi para este site e sob minha tutela, por isso alguns dos textos sobrevivem na internet. Com eles sobrevive um pouco de vergonha (não, não digo quais são nem onde estão).

Um dos problemas dos meus textos antigos é simples: Eu estava errado. Por mais motivos do que eu me importo de listar eu costumava ter a mente em outro lugar, de onde ela foi aos poucos se movendo. Eu provavelmente tinha consciência da ironia que era falar contra o novo, contra o jovem e ao mesmo tempo ser um, consciência que talvez eu não quisesse ter. De um jeito ou de outro, o ponto é que eu agora venho ao mesmo site que um dia abrigou meus protestos de jovem anti-jovem para escrever uma crônica—o que há muito tempo não faço por sinal—com a única intenção de dizer que errei e o porquê.

A tal juventude de hoje é na verdade, em termos amplos, a minha própria geração. Sempre foi. Atravessando agora os vinte e tantos ou mais, nós somos a nova força de trabalho, talvez ainda o futuro da nação e todas estas coisas que se ouve vez ou outra. Em nossos ouvidos ainda temos o luxo (dúbio algumas vezes) de pelo menos duas ou três gerações passadas nos guiando, apontando os erros de outras épocas, mas principalmente, especialmente, os acertos. “Na minha época”, começa uma voz familiar que o leitor talvez conheça bem, “as coisas eram diferentes”. O orgulho geralmente faz parte do rito de passagem entre as gerações, assim como a culpa. “Na minha época isso era aquilo e aquilo se fazia de outro jeito. Claramente o erro é de vocês”. Por algum tempo então eu estava convencido de que sim, o erro era nosso, era meu. Eu estava estupidamente convencido de que a minha geração estava—para usar uma palavra clichê—perdida e que eu deveria apontar o dedo na cara dela (na minha própria cara, vejam só) e dizer isto em voz alta e tom acusatório. Que fúteis nós somos, dizia eu; que ruins nós somos, lamentava eu; onde nós vamos parar, perguntava eu. Os valores antigos me faziam brilhar os olhos. O passado me fascinava. Infelizmente, era o conto da carochinha, tão arcaico e piegas quanto a própria expressão. Com o nível suficiente de romantização, pode-se elogiar qualquer época, qualquer governo, qualquer coisa, inclusive aquilo que não se viveu.

Eu não sabia de nada disso, ou fingia não saber, não lembro bem. O problema é que toda geração faz propaganda de si mesma, se defende. Cabe às próximas não se deixarem enganar, pensarem por si mesmas e até quem sabe não cometer os mesmos erros. Fazer é mais complicado do que falar, claro.

A minha geração erra frequentemente, como eu com gosto costumava falar. O que eu não via é que ela parece dedicada a cometer mais erros novos e isso é bom. Outro dia li, na sabedoria que pessoas anônimas na internet me dizem ser oriental, que cometer mil erros diferentes leva ao aperfeiçoamento; cometer dez erros mil vezes leva à estagnação. Se vê logo que estagnados não estamos (exceto pela economia quebrada que jogaram no nosso colo, mas isso é conversa para outra hora). Não conseguimos estar parados. Nossa atenção por sinal não é presa com facilidade, o que pode estar relacionado com o catéter que temos, fio de vida ligado direto com a já citada internet, sem a qual perecemos sem dúvida.

A cantora escocesa Amy Macdonald, ela própria com vinte e tantos, diz em uma ótima música corretamente chamada Youth of Today que “nós somos a juventude de hoje, nós vamos dizer o que queremos dizer”, o que é verdade. Nós dizemos o que nós queremos, muitas vezes e de maneiras diferentes. Não sei se sempre melhor do que outras pessoas em outros tempos, mas certamente em maior quantidade. Para o horror das gerações passadas, nós discordamos facilmente—inclusive entre nós mesmos—e fazemos isso às vistas e ao vivo para o mundo. Talvez por isso os tempos atuais sejam os mais inférteis para ditaduras em muito tempo. Não sabemos como é ter nossa liberdade de emitir opiniões tolhida. Muitos hoje são incapazes de conceber o próprio conceito de não poder falar alguma coisa por que é feio, errado, mal-visto ou pior ainda, tabu e só isso, essa incompreensão diante da imbecilidade da censura, pode ser nossa maior qualidade.

Para onde vai a geração da qual eu e provavelmente o leitor fazemos parte é uma pergunta com uma única resposta lógica: para o futuro. Outras respostas seriam no mínimo invenção. Muitos menos vamos direto para o inferno, conceito que para o qual não temos muita paciência e que tem cada vez menos importância, diga-se de passagem. Em números aparentemente grandes e crescentes, também nos importamos cada vez menos com os outros aliás. Em outros tempos as pessoas pareciam se importar tanto com os outros e de maneira realmente curiosa, o que os jovens de hoje não fazem: “Aquela outra pessoa faz as mesmas coisas que eu? Ela fala que nem eu? Reza que nem eu? Ama como eu amo? Tem coisas desenhadas na pele? Tem a mesma cor que eu? Mais clara ou mais escura?”, havia tantas perguntas a serem respondidas, mas hoje, justamente na assim-chamada era da informação, são respostam nas quais nos interessamos cada vez menos.

Finalmente, eu sei que é perigoso, em um sentido argumentativo, falar de categorias tão imensas quanto “o jovem de hoje” e “as gerações passadas”. Isto é, eu sei agora. Mas é sempre bom lembrar ao leitor que caso ele encontre uma exceção (vai encontrar várias na verdade), ele deve se parabenizar pois consegue ver pelo menos o óbvio. Nenhuma geração é uma massa homogênea. Felizmente, o sumo que tiramos do presente parece sem bem mais gostoso do que o dos frutos de tempos passados. Ainda um pouco amargo, mas com certeza melhor. E no final, é isso que toda geração deve almejar mais que tudo. Ainda há muito a fazer, mas agora sei que é um trabalho do qual não preciso ter vergonha.


Na capa deste texto: Ilustração por John Chae. Para mais informações e ilustrações clique aqui.

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2 comentários sobre “Apologia

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