O dentista de comercial
Publicado por Julio Kirk em Crônicas em 06/05/2012
De acordo com as propagandas de televisão, alguns dos seres humanos mais corretos, limpos e evoluídos são os dentistas. Lá estão eles, falando dessa ou daquela pasta de dente, dentro de seus jalecos perfeitamente brancos – reluzentes, dirão os mais exaltados – e que não apresentam uma única mancha de café, de um esbarrão em uma superfície suja, nada; têm a pele uniforme, impecável, como uma camada de silicone (borracha seria muito grosseira), imunes ao tempo e às intempéries. Quanto à maneira de falar e aos trejeitos, alguém poderia jurar que um destes doutores nunca mandou alguém à merda, jamais desferiu um soco, chute, um pontapé que seja, em toda sua existência. O dentista de comercial é tão perfeito, tão intangível, que é o anti-humano. É um ser suspenso no espaço televisivo, absorto e neutro, bom e irrelevante.
Os Três Titãs
Publicado por Julio Kirk em Artigos em 15/04/2012
Lembrar de um certo naufrágio hoje pode parecer até desnecessário já que, nesse momento mesmo, milhares falam nisso, seja com palavras ou imagens, no Daily Telegraph, na National Geographic, na Globo, na BBC, ou em incontáveis sites. Mas ainda há lados e personagens poucos conhecidos nessa história tão recontada. Ou seja: há mais o que lembrar hoje.
Memórias da degeneração
Publicado por Julio Kirk em Contos em 22/02/2012
Durante a vida, sempre procurei constância. E como nunca quis sofrer, eu queria a constância da felicidade, do amor, da vida calma, com boas conquistas, boas pessoas. Mas, através dos anos, comecei a sentir que este objetivo parecia sempre sofrer bloqueios, empecilhos dos mais diversos. No começo, pensei que fosse minha culpa. Estava errando em algo, mas onde? Minha família sempre havia sido pacata, integrantes de uma classe favorecida, mas não tão alta. Com a calma da vida neste meio, meus pais e meus irmãos e irmãs puderam ensinar-me coisas muito valiosas. Sempre julguei ter absorvido bem tais ensinamentos de vida, e tentei colocá-los em prática. Então, como eu dizia, nos primeiros sinais de falha no meu objetivo (bem simples, em minha mente naquela época) de ser feliz com o que a vida tem a oferecer, pensei que eu estivesse errando. Passei algum tempo sofrendo por pequenos desgostos – para mim inéditos – no início da minha mocidade. Mas então fiquei ainda mais firme em meu caminho escolhido, de fazer direito o que eu pudesse. Aliás, era a juventude, e o tempo me ajudava. E assim, tratei de atravessar essa juventude da melhor maneira possível: seguro, instruído e, claro, explorando os prazeres que só as mulheres podem dar, explorando o álcool, os bailes, cigarros, enfim.
A lógica de Raskólnikov
Publicado por Julio Kirk em Crônicas em 20/01/2012
” – Meu crime? Qual? – exclamou num acesso de súbito furor. – O de ter matado uma vil criatura malfeitora, uma velha usurária nociva a todos, um vampiro que sugava o sangue aos desgraçados! Mas um crime desses bastaria para apagar outros quarenta pecados. Não penso em tal, nem absolutamente me preocupa resgatá-lo. E ficam a gritar-me de todos os lados: cometeste um crime! Só agora percebo todo o meu absurdo, meu covarde absurdo, agora que me decidi a afrontar essa vã desonra. Foi por covardia e fraqueza que me resolvi a esse passo e talvez por interesse, conforme aconselhava Porfírii.
O cão
Publicado por Julio Kirk em Contos em 10/01/2012
“Não tenho nenhuma vontade de falar disso. Sim, eu sei que este tipo de coisa acontece na vida de um médico, e que eu deveria simplesmente meter na cabeça que… Aconteceu. Desde que nos formamos na faculdade, somos preparados para eventualmente perder um paciente. É a vida. Mas… Tente entender: desde que ele entrou pela porta do sanatório, desde que o trouxeram, completamente aterrorizado, fui eu quem o tentou acalmar. Eu que liderei a equipe que tentava solucionar… Aquilo, aquela coisa que ele tinha. Não conseguimos, ninguém conseguiu. Era intransponível.”
- Excerto do inquérito n° 660, pg 6, Polícia do Estado do Mississippi, 16 de agosto de 1958.
Um ano
Publicado por Julio Kirk em Crônicas em 30/12/2011
No dia trinta e um de dezembro de 2010 eu coloquei no ar o Estranho Sem Nome. O primeiro texto do site foi também um dos meus primeiros contos, Catarse. De lá até o presente momento foram quarenta e três textos publicados e com a publicação deste fecharei o ano com quarenta e quatro, em sua maioria crônicas, além de alguns contos e um ou dois textos fora dessas categorias. Comparado a outros escritores de sites, sei que não sou lá muito prolífico mas, para mim, estes textos são muita coisa. Sei o trabalho que cada um exigiu, as experiências que passei para ter inspiração para alguns e também os significados que apenas aquele que escreveu entende. Mas enfim. Este texto é um rápido balanço pessoal, algumas palavras que sinto que preciso dizer antes deste ano acabar – vejo dois mil e onze como um purgatório, onde precisei (assim como várias pessoas próximas minhas) passar por estresses, problemas, esforços, etc, como o metal que passa na fornalha.
Preciso lembrar também do Baconfrito, site onde comecei a escrever durante este ano, ficando portanto dividido entre minha coluna semanal lá, sobre música, livros, filmes, etc, e o Estranho. Com tudo isso consegui não só escrever melhor, mas também estou aprendendo a passar por cima da minha preguiça.
E preciso falar dos meus leitores, claro. Sei que são poucos e que escrevo pra uma platéia pequena, mas eles que mantiveram este site vivo (até por que me deram ânimo pra continuar escrevendo). Nas estatísticas do site vejo sempre quantos acessos tive e quais textos atrairam mais interesse. Aliás, o site conta até o presente momento com singelos 2.987 acessos.
Enfim. Apesar de ter escrito pouco nos dois sites estes dias, em breve o clima de fim de ano passa, e vou continuar escrevendo. Sempre continuar. Espero poder contar com todos que estiveram aqui pelo Estranho nesse ano e também chamar atenção de novos leitores.
É isso.
Vida longa e próspera.
Alioshenka
Publicado por Julio Kirk em Contos em 15/12/2011
“Amigo ouvinte, aqui fala o Repórter Esso, testemunha ocular da História. A rádio de Hamburgo, depois de transmitir o crepúsculo dos deuses durante muitas horas, acaba de anunciar: o Führer morreu. Terminou a guerra, terminou a guerra, terminou a guerra!”
- Heron Domingues, o Repórter Esso, 8 de maio de 1945
Um texto para o Estranho
Publicado por Julio Kirk em Crônicas em 11/11/2011
Em que ponto começamos a subverter o amor? Pra mim, ele sempre foi algo concreto, real; pode mostrar-se um poder, uma coisa tão sólida quanto uma fortaleza, quanto uma montanha de granito. Ele muda pessoas, é a fonte de energia para gigantes realizações. Exatamente por isso, sempre soube sua importância. Sempre me esforcei para praticá-lo de uma maneira a altura de sua solidez.
Igualdade entre os sexos
Publicado por Julio Kirk em Crônicas em 30/09/2011
Eu estava lendo este texto quando me deparei com um certo trecho e agora me sinto compelido a escrever sobre isso. No texto referido, o autor está respondendo uma crítica feita em outro site sobre o Portal Papo de Homem, e em determinado momento, diz:
A culpa
Publicado por Julio Kirk em Crônicas em 19/09/2011
Um dos maiores problemas dos dias atuais é a culpa: ninguém a tem. Se um indivíduo é mal-educado, imbecil, incoveniente, medíocre, cruel, sádico, etc, etc, a culpa (já que sempre deve haver um culpado) é atribuída à sociedade, aos pais, aos Estados Unidos, ao diabo, menos ao próprio. A responsabilidade é distribuída convenientemente, tirando assim o peso dos ombros daquele que está cometendo os erros.
